18/05/2021 às 07h41min - Atualizada em 18/05/2021 às 07h41min

Pesquisa da UFMG analisa sentimentos das crianças durante a pandemia: 'Mundo ficou doente'

REDAÇÃO
G1
"Porque o mundo ficou doente, né?”
 
Foi assim que uma aluna de 8 anos, de uma escola pública de Belo Horizonte, respondeu a uma pergunta da pesquisa desenvolvida pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Infância e Educação Infantil (Nepei) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre sentimentos e vivências das crianças desde que foram afastadas das aulas presenciais por causa da pandemia.
 
Cerca de 2,2 mil crianças, entre 8 a 12 anos, moradoras de Belo Horizonte e dos municípios que compõem a Região Metropolitana, participaram da pesquisa respondendo a um questionário com 21 perguntas.
A maior parte delas, 45,5%, são de BH. Em seguida aparecem moradoras de Lagoa Santa (7,5%), Ribeirão das Neves (7,4%) e Contagem (6,7%).
De acordo com o professor da Faculdade de Educação (FaE) da UFMG e coordenador do Nepei, Levindo Diniz Carvalho, as crianças ainda podiam enviar áudios e desenhos para externar emoções diante da pandemia.

"A ideia foi analisar, a partir dos relatos das crianças, as emoções e sentimentos despertados ao longo da pandemia e garantir o direito das crianças de participar e de opinar sobre esta crise social e sanitária que temos vivido", explicou o professor.

Segundo a professora Iza Rodrigues, as respostas chamaram a atenção pelas "formas poéticas de tratar de assuntos complexos e delicados".
"Podemos ver isso nos desenhos e fotografias enviados. Em seu desenho 'Meu aniversário em julho', um menino de 9 anos revela sua solidão. Em mensagem, uma menina de 10 anos escreve que 'a doença afasta e aproxima pessoas', o que evidencia o paradoxo da pandemia, uma vez que boa parte das crianças sente bastante a ausência de amigos e familiares, mas, em simultâneo, vê com alegria o estreitamento da convivência com os pais", exemplificou.

 

Desigualdades sociais e de acesso à internet

 

A pesquisa, iniciada em junho de 2020, gerou um primeiro relatório com observações e alertas sobre os impactos do afastamento das atividades escolares presenciais como medida de prevenção ao contágio pelo novo coronavírus.
O grupo, composto por três professores da UFMG, também tentou compreender como as desigualdades sociais, territoriais, raciais e de gênero repercutiram na vida dos participantes.
Por este motivo, a pesquisa priorizou estudantes das redes públicas e crianças que moram em comunidades. Dentre os voluntários mirins, 64,4% frequentavam escolas públicas e 30,6% estudavam em instituições particulares.
 
"As experiências sociais das crianças são marcadas por desigualdades sociais e raciais. Por exemplo, as que se declararam pretas ou pardas têm menos acesso a computador, tablet e a internet. O mesmo acontece com crianças que moram em áreas com mais vulnerabilidade social", disse o coordenador da pesquisa.
 
Entre as que não têm acesso à internet, 11,1% moram em locais de alta vulnerabilidade, dado semelhante ao do acesso a celular: 11,6%. Já em relação ao acesso ao computador ou tablet, de maneira geral, as crianças da pesquisa têm pouco acesso.
 
Com base nesses resultados, mais crianças que se autodeclararam brancas afirmaram ter acesso a essas ferramentas do que as pardas e as pretas.
"É uma informação fundamental para pensar políticas relacionadas à educação, visto que o ensino remoto tem sido um meio de as escolas chegarem até elas”, disse o coordenador.
 
Segundo o estudo, 55,5% das crianças participantes residem em lugares de baixo risco de vulnerabilidade territorial, e 29,2% na categoria média.
 
Levindo destacou os resultados da autodeclaração racial, que coincidem com as informações do censo escolar de 2019 acerca do perfil das crianças da educação básica: 45,4% são pardas, 39,8%, brancas, e 9,2%, pretas. Houve ainda 28 autodeclarações de crianças amarelas, 12 de indígenas e 27 da categoria "outras cores".

Processos de escuta são urgentes

 

Ao fim do relatório, os professores fizeram uma série de recomendações ao poder público e à sociedade. Os pesquisadores acreditam que é urgente a criação de processos de escuta, que podem ser feitos, como explica o relatório, por meio de rodas de conversa, assembleias, entrevistas individuais e fóruns. Para os coordenadores, o conselho vale também aos pais.
 
“Há uma grande valorização da convivência familiar por parte das crianças. Reiteramos a necessidade de dedicar atenção e ter disponibilidade para escutar filhas e filhos”, disse a professora.
 

Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »
visitas

222307

views

615432

A pandemia de covid-19 colocou o mundo diante de um dilema: com o número de casos explodindo e um estoque limitado de doses de vacinas, quem deve ser imunizado primeiro?

36.7%
63.3%
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Precisa de ajuda? fale conosco pelo Whatsapp